Expectativa de sucesso em jogo se transforma em frustração

O dia 20 de junho de 1976 foi marcante para o futebol europeu. Na final da Eurocopa, a Alemanha Ocidental se enfrentava com a Tchecoslováquia. A seleção alemã, que havia se consagrado campeã da Copa do Mundo dois anos antes, estava determinada a manter seu prestígio. Já a Tchecoslováquia sonhava em conquistar seu primeiro grande título. E foi nesse clima de expectativa que Antonín Panenka se destacou de maneira surpreendente.

Na hora da decisão, o jogo estava empatado em 2 a 2 após a prorrogação. Para definir o campeão, as duas equipes foram para os pênaltis, algo inédito em torneios internacionais até então. Enquanto muitos jogadores optaram por chutar em um canto, Panenka decidiu fazer algo diferente. Ele se aproximou da bola e, com uma calma impressionante, bateu uma cavadinha. O famoso goleiro Sepp Maier, da Alemanha, se lançou para o lado, e a bola foi suavemente para o meio do gol. Essa cobrança se tornou icônica e ficou conhecida como “cavadinha” ou, em homenagem ao próprio jogador, “cobrança à la Panenka”.

A vitória da Tchecoslováquia garantiu o único título da Eurocopa até hoje, e Panenka se transformou em uma lenda do futebol. Ao longo das décadas, muitos jogadores, como Djalminha, Zinedine Zidane e Loco Abreu, tentaram repetir sua ousadia com sucesso. No entanto, nem todos tiveram a mesma sorte: nomes como Gary Lineker e Alexandre Pato falharam em suas tentativas.

Em uma entrevista descontraída ao jornal “The Guardian”, Antonín Panenka, agora com 77 anos, relembrou aquele momento histórico e como sua cobrança revolucionou as penalidades. Ele se divertiu ao comentar que, apesar de ver muitos jogadores fazendo a cavadinha, não recebe nada por isso. “É pura alegria ver esses jogadores cobrando meu pênalti. A única tristeza é que não ganho direitos autorais por isso”, brincou.

A origem da cavadinha

Muita gente pensa que Panenka teve a ideia da cavadinha de forma espontânea na final, mas a verdade é que a jogada foi resultado de treinos. Em 1974, ele começou um desafio com o goleiro do seu clube, Zdenek Hruska. Depois dos treinos, os dois se divertiam cobrando pênaltis. Para tornar a disputa mais interessante, Panenka fez uma aposta: se Hruska não defendesse nenhum dos seus cinco chutes, ele ganharia cervejas e chocolates. Porém, o goleiro se destacou e acabou fazendo Panenka perder a aposta.

Foi nesse momento que a ideia da cavadinha surgiu. “Comecei a pensar em como os goleiros tendem a cair para um lado ou para o outro, e tive a ideia de simplesmente encobrir a bola bem no meio”, ele explica. E não é que a estratégia funcionou? Panenka começou a usar a cavadinha em amistosos e, eventualmente, em jogos oficiais.

O grande momento na Eurocopa

Durante a preparação para a Eurocopa na Iugoslávia, Panenka decidiu que, se tivesse a chance, faria a cavadinha em uma cobrança de pênalti. “Eu sempre soube que só havia uma maneira de fazer isso, porque ninguém tinha feito antes e ninguém jamais pensaria que eu conseguiria, especialmente em uma final. Eu não tinha 100% de certeza de que marcaria. Eu tinha 1.000% de certeza”, disse ele.

Na final contra a Alemanha Ocidental, após um empate emocionante, as equipes foram para os pênaltis. Enquanto os jogadores convertiam suas cobranças, a pressão aumentava. A Tchecoslováquia chegou à sua quinta cobrança, dependendo do gol de Panenka para se consagrar campeã. E foi exatamente o que aconteceu.

As consequências da cavadinha

No entanto, a cobrança de Panenka não trouxe apenas glórias. Após o jogo, a relação entre ele e Sepp Maier ficou um tanto estremecida. Por muitos anos, o goleiro alemão não falou com Panenka, e houve até rumores de que ele tinha um alvo com o rosto do tchecoslovaco na garagem. “Ele passou 35 anos sem me dirigir uma única palavra. Mas agora nos damos bem”, conta Panenka, rindo da situação.

A cavadinha de Antonín Panenka não só garantiu um título histórico para a Tchecoslováquia, mas também se tornou um símbolo de ousadia e criatividade no esporte. E assim, a história desse pênalti continua viva nas memórias dos amantes do futebol, sempre lembrando que, às vezes, um toque de ousadia pode mudar tudo.

Sobre o Autor

João Ribeiro